Dor Crônica: muito além dos analgésicos - por que a dor não passa e o que fazer?


A dor não passa… e, com o tempo, você começa a perceber que não é só o corpo que dói.

O sono já não é o mesmo, o cansaço se acumula, o humor muda, atividades simples começam a exigir mais esforço do que antes, e até a forma como você se relaciona com as pessoas ao seu redor não é mais a mesma.

Se você sente que está sempre cansada, irritada ou limitada pelo próprio corpo… saiba que você não está sozinha!

Muitas mulheres chegam nesse ponto tentando apenas “controlar” a dor na esperança de que, em algum momento, ela simplesmente desapareça.

Quando a dor dura mais de 3 meses, o problema já não está apenas no local que dói.

E é importante dizer com clareza:
isso não é frescura
não é fraqueza
e não é “coisa da sua cabeça”

A dor crônica é uma condição real, com alterações no sistema nervoso que fazem o corpo amplificar sinais de dor.
Existe algo mais profundo acontecendo no organismo.

E é exatamente aqui que entra uma nova forma de entender a dor: não como um inimigo a ser silenciado, mas como um sinal que precisa ser compreendido.

A boa notícia?

Existe tratamento.
E existe caminho de melhora.

Mas antes de pensar em tratamento, existe uma pergunta essencial:

o que realmente está por trás da dor crônica?

Porque entender isso muda completamente a forma como você enxerga e trata o seu próprio corpo.

O que é (e o que não é) dor crônica:

Dor crônica é uma dor persistente, que pode ter começado após uma lesão, um processo inflamatório ou até mesmo sem um gatilho claro.

Com o tempo, o corpo passa a “memorizar” essa dor.

O que ela é:
- Uma condição de saúde complexa
- Envolvendo corpo, mente e sistema nervoso
- Influenciada por fatores físicos, hormonais e emocionais

O que ela não é:
- Não significa necessariamente que existe um dano ativo no corpo
- Não é exagero
- Não depende de exame alterado para ser real

Mitos comuns que precisam ser quebrados:

“Preciso esperar a dor passar para me movimentar.”
→ Na verdade, o movimento gradual é parte do tratamento.

“Se meus exames estão normais, não tenho nada.”
→ Exames normais não anulam a sua dor.

“Só remédio resolve.”
→ A dor crônica responde melhor a uma abordagem integrada.

Por que a dor continua mesmo quando “está tudo normal” nos exames

Com o tempo, o sistema nervoso pode se tornar mais sensível.

É como se o “volume da dor” ficasse mais alto.

Chamamos isso de sensibilização central.

Nessa fase, estímulos simples podem ser interpretados como dor. Por exemplo: tocar, caminhar ou permanecer sentada por muito tempo,

E alguns fatores alimentam esse ciclo:
- sono de baixa qualidade
- estresse crônico
- sobrecarga emocional
- medo de se movimentar
- inflamação silenciosa
- alterações hormonais (especialmente na perimenopausa e menopausa)

A dor deixa de ser apenas física.

Ela passa a ser uma experiência do corpo inteiro.

A boa notícia: o corpo também pode reaprender

Assim como o sistema nervoso aprende a amplificar a dor, ele também pode ser reeducado.

E isso acontece através de pequenas mudanças consistentes.

O objetivo não é “zerar a dor da noite para o dia”.

É recuperar função, autonomia e qualidade de vida.

Por onde começar: um plano possível para reduzir a dor no dia a dia

1. Entender a sua dor

Conhecimento reduz medo — e isso já diminui a intensidade da dor.

2. Sono é tratamento

Seu corpo se repara enquanto você dorme.

  • Busque regularidade nos horários

  • Evite telas à noite

  • Pegue luz natural pela manhã

Se houver ronco, pausas respiratórias ou cansaço excessivo, vale investigar.

3. Movimento (mesmo com dor)

Sim, você pode — e deve — se movimentar.

  • Comece com 10–15 minutos por dia

  • Caminhada, pilates, yoga ou hidro são ótimas opções

  • Evolua aos poucos (10–20% por semana)

A regra é simples:
constância > intensidade

4. Acalmar o sistema nervoso

Seu corpo precisa se sentir seguro.

  • Respiração 4-6 (4 segundos inspirando, 6 expirando)

  • 5 minutos, 2 a 3 vezes ao dia

  • Técnicas de relaxamento ou mindfulness

5. Alimentação que reduz inflamação

Sem radicalismos.

  • Metade do prato com vegetais

  • Boas fontes de proteína

  • Gorduras saudáveis (azeite, castanhas, peixes)

Seu intestino e sua dor estão profundamente conectados.

6. Olhar hormonal (essencial para mulheres)

Oscilações hormonais influenciam diretamente a dor.

Especial atenção para:

  • TPM intensa

  • perimenopausa

  • menopausa

Esse é um ponto muitas vezes negligenciado — e que pode mudar completamente a evolução do quadro.

7. Medicamentos: quando e como usar

Eles podem ajudar — mas não são a única resposta.

Alguns casos se beneficiam de:

  • antidepressivos específicos

  • moduladores de dor neuropática

O importante é individualizar.

8. Você não precisa fazer isso sozinha

Terapia, fisioterapia e acompanhamento médico fazem diferença real.

Especialmente abordagens como:

  • terapia cognitivo-comportamental (TCC)

  • ACT

  • fisioterapia com educação em dor

Quando é importante investigar mais: sinais de alerta que não devem ser ignorados

Alguns sinais precisam de avaliação rápida:

  • febre ou perda de peso sem explicação

  • dor intensa à noite

  • fraqueza progressiva

  • perda de sensibilidade

  • alteração urinária ou intestinal

  • dor súbita muito intensa

Nesses casos, procure atendimento.

E os exames?

Nem sempre eles contam toda a história.

Muitas alterações em exames são comuns com a idade e não explicam a dor.

Por isso, o foco não deve ser apenas o resultado mas como você está funcionando no dia a dia.

Pequenos passos, grandes mudanças: como começar sua recuperação

Você não precisa mudar tudo de uma vez.

Comece com pequenas metas:

  • dormir um pouco melhor

  • se movimentar alguns minutos por dia

  • cuidar da sua alimentação

  • aprender a escutar seu corpo

A consistência é mais importante do que a perfeição.

Para lembrar: sua dor é real e existe caminho de melhora

A dor crônica não define você.

Seu corpo não está “quebrado”.

Ele está tentando se adaptar — e precisa de ajuda para encontrar o equilíbrio novamente.

E isso é possível.

Drª Enialyn Fontino

Referências:

- International Association for the Study of Pain (IASP). 2020 IASP classification and chronic pain education.

- CDC. Nonopioid treatments for chronic pain, 2022.

- Häuser W et al. Fibromyalgia management guidelines, 2021.

- Chou R et al. Noninvasive treatments for low back pain. Ann Intern Med, 2017.

- Moseley GL, Butler DS. Explain Pain, 2017.

- NICE Guideline NG193: Chronic pain (primary and secondary), 2021.

Enialyn Fontino

Médica com abordagem de medicina e medicina funcional integrativa

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